Por Victor Garcia, em Antologia do Anarco-sindicalismo.
Traduzido pela Federação Operária de São Paulo - Seção Campinas
O anarquismo forçosamente tem que trabalhar por e para criar uma base econômica em que se apoiará, cimentando sua ação transformadora para alcançar as linhas fundamentais que servirão de sustentação ao esquema todo, tornando-o plausível. O sindicalismo revolucionário não é mais que um instrumento que o anarquismo inevitavelmente necessitou forjar a fim e efeito de sair das regiões do pensamento e entrar em cheio nas fases sua experimentação prática1.
O Sindicalismo Revolucionário não é um fim em si mesmo, nem teórica nem praticamente, para a realização da concepção ideal de moldar-se em uma sociedade sem Estado.
O Sindicalismo realizará futuramente a ação violenta da revolução social, e depois deste fato, o Sindicalismo terá um papel importantíssimo na organização da economia da sociedade libertária. Mas se pode afirmar que todas as realizações revolucionárias do presente e do futuro, infinitamente mais que do Sindicalismo, serão resultado da espiritualidade insuflada dos anarquistas, o Sindicalismo não realizará jamais nenhum gesto revolucionário, e muito menos a revolução social2.
Mas se o sindicalismo não pode ser o ideal, há de ter nele o conceito de braço. Não é precisar de uma divisão entre anarquistas e sindicalistas, como não é precisar um divisão entre cérebro que pensa e o braço que executa. Há uma missão do sindicalismo e há uma missão da anarquia. Sindicalistas todos para luta e anarquistas para depois dela.
O sindicalismo, a força; e o comunismo libertário, o ideal que estabelece aquela força. Divididos anarquistas e sindicalistas, nada fazemos, como nada faria o pensamento sem a ação e a ação sem o pensamento. O único que vem evitar é que o sindicalismo adote a maneira politiqueira3.
O sindicalismo revolucionário, entendido como método e não como ideologia em si (uma ideologia sindicalista verdadeira e própria não existe e o que por algum tempo teve essa pretensão não era se não um mosaico e uma mescla de idéias e métodos do socialismo e do anarquismo), e melhor seria dizer o movimento sindical revolucionário, aparece claramente como o mais adequado para secundar um movimento geral idealista sobre o campo econômico. Desde ponto de vista os anarquistas por exemplo, o consideram como importante coeficiente de suas lutas, como meio e terreno indispensável para atrair as lutas por seus ideais as grandes populações proletárias4.
Dizem que o Sindicato não é nada. Se nega valor ao Sindicato. É um erro esta afirmação. Pois são cérebro e braço, não se compreende um sem o outro.
Acredito que os anarquistas estejam orgulhosos, se o Sindicalismo e seu instrumento, o Sindicato, moldam na realidade alguma ou algumas das concepções do Anarquismo. O Sindicalismo tende a usufruir as prerrogativas que lhe são próprias na ordem social.
Claro que o Sindicalismo não é Anarquismo. Mas uma gradação do Anarquismo.
Afirmam também que o Sindicalismo não tem idéias próprias. Não é certo.
Nos Congressos celebrados nos anos 1910, 15, 16,18 e 19, o Sindicalismo chega a precisar que se apoderará dos instrumentos de trabalho. E quando se fala da idéia prática do comunismo, se diz que isso é Anarquismo. Sim, bom. Mas, de que instrumento se valeria para a realização de sua postura econômica? Do Sindicato, não?
O Anarquismo deu ao Sindicalismo alma e espirito. Mas não há menor dúvida que o Sindicalismo é uma promessa e uma garantia para a precipitação das idéias anarquistas.
Quem nega que o Sindicalismo discute e resolve o problema econômico, problema dos problemas? Quem ousará negar que o Sindicalismo revolucionário e libertário, em sua concepção econômica, que duvidará, quem negará, repito, que seja o auxiliar poderoso e eficaz do Anarquismo?
Aqui há a vitalidade do Sindicalismo. Por essa razão não estamos de acordo com os socialistas. Eles fazem homens que não acreditam em sua personalidade.
Os socialistas, com a obra que realizam, retardam o momento de possessão integral das prerrogativas sociais do homem. Ainda há quem acredite que não devemos resolver os problemas, antes sim, deixa-los para que outros resolvam, por terem a solução, e o homem não fará jamais nada. Quem acredita na organização estatal, é um escravo.
A virtude do Sindicalismo, posto que tem idéias próprias, é relevar e substituir os fatores do capitalismo e da burguesia.
A organização dedicada do Sindicalismo, orientado em um sentido revolucionário e libertário, se acerca do Anarquismo.
Sindicalismo, é a agrupação natural dos elementos de uma mesma profissão. Este, não só substituirá os valores burgueses e capitalistas que haviam antes, e que dará garantias de moralidade e personalidade não dadas, até o presente, por nenhum regime burguês.
O Sindicalismo, digamos já, é linha de frente do Anarquismo5.
Cada um em seu meio e sua esfera, ajudando-se reciprocamente, podem faze-lo todo; porém se, ao contrário, se os confunde, poderia suceder de forma quase automática que um atrapalhe a ação do outro e o impeça de fazer qualquer coisa.
Não é que eu seja partidário do sindicalismo puro – pois não vejo nesta fórmula mais que um espírito reformistas, que limita-se a ação da classe trabalhadora em conquistas de aumentos salariais e a redução da jornada de trabalho - , nem que possa acreditar que o sindicalismo se bastará a si mesmo. Pelo contrário, estimo que sem a existência do movimento anarquista, o movimento dos trabalhadores não poderá nunca ter virtude revolucionária.
Estimo que o sindicalismo é para o anarquismo o que o braço é para o cérebro, a ação para o pensamento, a idéia.
Todo movimento dos trabalhadores que não aceite as diretrizes morais que se derivam de um ideal de transformação, que não pense em acabar com os poderes coercitivos da dominação do homem sobre outro homem; que se assente exclusivamente no terreno dos benefícios imediatos; que não sinta a necessidade de acabar com as tiranias seculares que fazem nossa escravidão e do privilégios que fazem nossa miséria; que, em fim, em sua ignorância, sua cegueira, não veja que o Estado e o capitalismo, que se determinam reciprocamente, são a causa única de nossa servidão, se converte em um lastro nocivo, em uma força estática perigosa para o futuro de nossa ação6
1Fragmento de “Carta aberta aos Camaradas anarquistas”, subscrita por setenta e quatro firmas - Alberola e Rosquillas Magriñá entre ellas – que desde o carcere dirigem a “Solidariedade Proletária” e que foi publicada no número 24 correspondente a março de 1925.
2Juan Peiró. “O sindicalismo basta a si mesmo?”, “Despertar” de Vigo, 28 dic. 1929.
3Soledad Gustavo. “O Sindicalismo e a Anarquia”, em “ A Revista Branca”, num 3, 2ª Epoca, Barcelona, 1 de julho 1923, pág. 3.
4Luigi Fabbri. O Ideal Humano. Voluntad. La Plata, s/d. Pág. 7.
5Salvador Segui. Conferencia pronunciada no Castillo de la Mola, em Mahón, onde esteve preso por 16 meses, em 31 dic. 1920. Cita Cénit. Bimestral. Toulouse, maio-junho 1966,pags 4763/4.
6Eusebio C. Carbó. Informe, como delegado da CNT, para o Congresso da AIT em Amsterdã (março de 1925)
