Umbral de um Mundo Novo
A Cavalgada do Ideal
Do fundo das idades: ora fio de água cantando, ora torrente rugidora, a Idéia rola. E avassala. E domina.
Foi virtude com Buda; amor com Jesus. Na Grécia, chamaram-lhe filosofia e era o conhecimento da causa; em Roma, foi fé e viveu nas catacumbas.
Foi sonho em todos os ergástulos, e nos postos de ignomínia – refrigério.
Foi – é – revolta.
Inspirou Spartacus e os escravos; era a seiva das “jacqueries” medievais; esteve na tomada da Bastilha; Moldou rudemente, ainda grosseiramente, que a argila é dura – a Rússia. Ditou a Enciclopédia e tinha então punhos de renda; e ainda ontem passou por aqui erguida no alto, como uma bandeira, pelo povo que tinha fome.
A Idéia, a única capaz de se personificar assim, gera-se no tinir das gargalheiras, nutre-se da dor. Onde estão um escravo e um faminto e um incompreendido – ela está velando. Às vezes, não a sentem os tristes e morrem sem a conhecer.
Enceguecidos pela ambição, pelo orgulho, os poderosos fingem não a ver e quando ela, vestida a túnica inconsútil da verdade lhes aparece em sonhos, correm, doidos, a apunhalar fantasmas.
Mas ela reina no mundo. Não há império que tenha tantos súditos, nem religião com tantos adeptos.
A sua ronda vai do Oriente ao Ocidente e do pólo a pólo. Levantam-se muralhas, acendem-se fogueiras, fecham-se portos, erguem-se cadafalsos – para lhe impedir a marcha. E ela passa. Cavalgada fantástica, quanto não dariam os reis para a terem como escolta!
Os prodígios que se têm feito, a inteligência que se tem posto à prova, o dinheiro que se tem despendido para evitar que as idéias libertárias se propaguem! Há legiões de homens armados até os dentes, que fazem dessa tarefa o objetivo de toda a sua vida. Insensatos!
Quando julgam tê-las sufocado na América fazendo funcionar a cadeira elétrica, elas surgem na França e são a Comuna; quando supõem jugulá-las, espingardeando Ferrer em Montjuich, elas aparecem na Espanha e criam comunidades libertárias no campo e na cidade.
Milhares de anos de violência, séculos de escravidão, foram incapazes, sequer, de atenuar o arrebatamento das idéias. Às vezes, na sua carreira vertiginosa, elas estacam. Descansam. Refazem-se de forças, para continuar, formidáveis. O orgulho dos poderosos chega a supor que, numa cilada, as detém. Ao cabo, encontra, ao canto dum cárcere, um farrapo humano, ou, no fundo dum fosso, um cadáver. E elas lá seguem o seu caminho, sempre para o alto, sempre para luz.
Ouve-se, ao longe, o tropel da cavalgada. Que acordem os que ainda dormem. É tempo.
É o triunfo da justiça, é a vitória do amor que chegam; abramos-lhes nossos corações.
Poderosos, soou a vossa hora. Ricos, começa a restituição. Mas para que tremer, se acabou a violência?! Soou a vossa hora para o trabalho; começa a restituição do vosso supérfluo. Mas nada. O sangue, esse era só vosso apanágio; a dor, a vossa arma de combate; a extorsão, a vossa tática.
Para nós, não. A Idéia que nos deu longanimidade para suportar os vossos vexames e as vossas prepotências, ainda nos exalta para que vos perdoemos.
Sede bem-vindo ao seio da Sociedade Nova. Estão ali as ferramentas, além os campos para arrotear. Vamos, que o tempo urge. É dia claro já e foi longa e penosa esta noite.
O ideal que foi revolta e liberdade, agora é só – trabalho e perfeição.
Ao trabalho, pois
“A Batalha”, Lisboa – in Anarquismo, Roteiro da Libertação Social – Edgar Leuenroth, Editora Mundo Livre – 1963.
Digitado pelo Coordenação de Imprensa do Sindivários Campinas – associada a FOSP-COB
