SOBRE AS DIFERENÇAS SOCIAIS
E A ANARQUIA - Parte 5
SOBRE AS DIFERENÇAS SOCIAIS E ANARQUIA
A idéia da Anarquia guia-se por muitos princípios dinâmicos, assim como é a própria sociedade atual brasileira de economia capitalista, economia esta devedora de muitos bilhões ao mundo e a
Tal situação dinâmica sempre mantendo sua disposição para liberdade irrestrita; uma liberdade de fato, de igualdade entre os indivíduos, embora e como vai ser notado durante este texto, se reflita muito da divisão do trabalho que é uma marca da dinâmica econômica do capitalismo.
O pensamento acrata, e aqui é importante apresentar aos que não têm maior conhecimento do anarquismo, que ele se apresenta com outros nomes: socialismo libertário, sistema acrata. Embora estes nomes falem da mesma coisa, eles são usados para abrandar o impacto negativo e pejorativo que a palavra anarquia trás em seu bojo.
O socialismo libertário está engajado na construção de uma sociedade mais justa a partir de hoje e do agora, portanto, sem transições ditatoriais, uma nova dinâmica social onde todos os indivíduos possam se fazer políticos ativos e participantes diários nos diversos aspectos da sociedade local a qual pertence e a que as diferenças individuais e sociais sejam um fator de união e não agente de opressão e discriminação social, diferente do que, por exemplo, se desenvolveu no seio do antigo Estado soviético marxista-leninista, na forma de uma burocracia central privilegiada.
Ao contrário, a tendência das diferenças sociais dentro de uma revolução de molde libertário é de sofrer uma redução quantitativa e haver um rodízio nas diversas atividades profissionais, procurando alternar constantemente as tarefas, evitando assim gerar pontos de segregação ou de prestígio, em poucas palavras, diminuir ao máximo as relações remanescentes de poder individual e social do sistema a ser suplantado. Fato este que na ex-URSS não aconteceu, e onde havia erradicado o lucro e a tirania dos Romanov, este foi substituído pelo exclusivismo burocrático do partido único.
A compreensão deste fato, da construção de uma sociedade mais justa desde de já, é essencial para os libertários e simpatizantes, visto que é a primeira vista, diretrizes de qualquer partido (se bem que mais como um fim longínquo e teórico do que uma prática diária), está declarado na Constituição (como aparato de ficção jurídica e utilizado no discurso hipócrita do sistema atual) e é cantado nos quatro cantos do globo, embora a canção opressora soe com muita jactância para os oprimidos que a ouvem e a galhardia do politiqueiros de plantão não mascaram a podridão que fazem parte.
Então, quando surgem (mas não do nada ou de geração espontânea) grupos que contestam a sociedade e pregam o fim de todas as formas de opressão, surge uma pergunta: Do que estão falando, aonde está esta opressão tão famigerada e quem a exerce? Não vivemos em uma democracia? Não temos liberdade? Se cada um trabalhasse, não haveria tanta pobreza?
Primeiro, a opressão aparece onde menos esperamos, ou seja, ao nosso lado, entre os supostos amigos, na família e em nós próprios. Infelizmente é um fato que procuramos sempre negar e que nossa autocrítica sempre é ineficiente e complacente.
Enquanto nossa crítica é tão ácida, rigorosa e intolerante perante aos outros, quando aplicada a nós se ameniza de tal forma que tornamos quase modelos “santificados”, imaculados e redimidos de todo erro e pecado.
É necessário aqui lembrar que todos os homens erram, mas somente poucos assumem seus erros. Talvez esta conduta já tenha um cunho libertador. Nossa obstinação é cega e só enxerga os erros dos outros, como se nossa parcela de quiproquós nada fosse. Brigamos com os nossos próximos, somos intolerantes perante eles e em muitos casos, nossos comentários ferinos assumem dimensões assustadoras.
Senhores, se fossemos honestos, não haveria tanta injustiça neste mundo, mas o conceito de injustiça é muito amplo e de várias versões, principalmente para quem acha que tem muito para assegurar, conquistar e manter. Uma outra questão aqui, pode, dentro tantas, surgir:
Se tudo isso não passasse de uma conspiração imaginária e o mundo estivesse em harmonia, apesar de alguns desajustados?
Muito desconfíável é este tipo de elaboração discursiva, uma vez que existem milhões de pretensos desajustados para poucos em harmonia de fato e talvez a ascese ao nirvana esteja em um grupo que valoriza o capital, ligada as emanações míticas da moda do bem gastar em futilezas que lamentavelmente espalham por toda sociedade. Os fatos diários demostram aumento de uso de armas, de seguranças armados e de grupos que clamam por mais policiais nas ruas, no que eqüivale dizer, “coloquem mais violência nas ruas que somos seus reféns, por favor!” Quanto maso-sadismo e neurose!
E em relação a “harmonia de estar de bem de vida”, é mostrada a partir de quem oprime, ou seja, falácia burguesa que esconde seus esqueletos nos armários (como as ossadas de Perus que está paralisada em algum porão do IML da UNICAMP, sobre custódia de Badan Palhares!) da propaganda e meios de informação (mass media) que controlam.
É fato notório a censura branda existente por parte do governo e das empresas de comunicações privada( que na maioria, se não todas, são de grandes proprietários) para com os assuntos importantes para a sociedade. Práticas de distorcer, pré-selecionar e edições dilaceradoras das notícias, consequentemente controlando o que é e pode ou não pode ser transmitido.
E quando são transmitidos, estão todas as notícias maquiadas que perdem seus conteúdos de importância e neste caso, os oprimidos ficam duplamente desajustados, por estarem por inteiro submetidos aos valores da sociedade que os dominam e mal informados por meios de comunicação idoneidade duvidosa que selecionam nossa informação.
Avaliando por uma outra perspectiva seria que analisando os programas televisivos que chegam às milhões de residências, invadindo de uma forma arbitrária incontestável, sua maioria são encomendados e elaborados na ótica de pequenos grupos que contém grandes parcelas dos valores econômicos políticos, morais e sociais, do país e os querem mante-los e aumenta-los (vantagem e lucro máximo sempre), camuflando muito bem a diversidade desigual da distribuição de tais valores societários pelo imensidão do país.
Colocando-se em posição oposta à estes e muitos outros tipos de violências cotidianas, se apresenta a Anarquia como uma alternativa e meio de mudança efetivo da sociedade, não só no âmbito coletivo, mas também no plano de cada indivíduo (o reencontro com seu próprio ser e a volta a sentir prazer de uma forma intensa com a vida, que fora “domesticada”, “disciplinada” e que recomeça a se soltar, a conquistar a liberdade do próprio corpo), se bem que a relação social já tem muito de cada indivíduo e vice versa e não poderia ser de outra maneira, pois negaria está interação e a essência da sociedade.
A anarquia, ao promover uma alternativa social procura simultaneamente amplia-la para todas as esferas, para haver uma mudança de fato em cada eu participante da sociedade, fato fundamental para uma reestruturação efetiva das relações sociais e sem o qual, não há revolução que consiga permanecer por muito tempo.
A idéia de um individualismo radical, de um “eu” absoluto e independente é um tanto que ingênua e limitada, por diversos pontos neste sentido, relação coletivo/indivíduo.
Por Lucifer - inverno de 2000 (continua ...)
