Sindivários Campinas

Companheiras!


Em vista da apatia que vos domina e que ninguém ainda pode discutir, nesta cidade em que somos tão exploradas, resolvemos nós fazer uma nota em defesa de todas, esperando que não nos deixeis sós a reclamar os direitos que nos cabem indiscutivelmente. È justo recordar que já por vezes, alguns amigos nas colunas do Avanti, de La Bataglia e da A Terra Livre, surgiram em nossa defesa e as suas palavras não foram ouvidas. Mas, esperamos que não nos deixareis, a nós também, a pregar no deserto.

Devemos demonstrar enfim que somos capazes de exigir o que nos pertence; e se todas forem solidárias, se nos acompanharem nesta luta, se nos derem ouvidos, nós começaremos por desmascarar a cupidez dos patrões sanguessugas.

No último movimento de greve geral nesta cidade, ficou provado claramente que nossa classe é a mais ignorante e a mais atrasada. Nesse movimento de solidariedade operária tomaram parte todas as corporações de ofício, desde o mecânico ao marceneiro, desde o ferreiro ao carpinteiro, chapeleiros, pedreiros, quase todos os trabalhadores gráficos, os operários e operárias das fábricas de fósforos, de tecidos, de camisas, etc., os marmoristas, os ourives e muitos outros. Em Jundiaí, o comércio fez causa comum com os grevistas, fechando as portas. Aqui, em São Paulo, os próprios estudantes manifestaram as suas simpatias pelos operários, tendo de ser fechada a Faculdade. E nós costureiras? Nós passamos indiferentes pelo meio dos grevistas que enchiam as ruas da cidade e fomos trabalhar, mostrando que não tínhamos sentimento de solidariedade. E, no entanto, naquela multidão, estavam nossos pais, nossos irmãos, nossos noivos, por entre os quais passamos sem pensar que eles reclamavam um direito que também é nosso.

Companheiras! É necessário que recusemos trabalhar também de noite, porque isso é vergonhoso e desumano. Em muitas partes homens conseguiram jornadas de 8 horas, já desde 1856; e nós, que somos do “sexo fraco”, temos que trabalhar 16 horas! O dobro das horas dos homens, que são do “sexo forte”! Pensai, companheiras, no vosso futuro de mães, e que, se continuarmos a consentir que nos depauperem, nos tirem o sangue desde modo, depois, tendo perdido a nossa energia física, a maternidade será para nós um martírio e os nossos filhos serão pálidos e doentes”. E finalizam:

Como estudar ou ler simplesmente um livro, quando se vai para o trabalho às 7 da manhã e se volta para casa às 11 da noite? Das 24 horas, só nos ficam 8 horas para repousar, que nem bastam para recuperar no sono as forças exaustas! Nós não temos horizontes, ou antes, temos horizontes sem luz: nascemos para que nos explorem e para morrer nas trevas como brutos. Mas, esperamos que não nos abandoneis, companheiras, e que nos ajudareis a desnudar e a fustigar a infame atrocidade dos patrões, que deve ter um fim. Sim! Contamos com vosso apoio de irmãs e de companheiras, e assim, a vitória será nossa. Mãos, à obra!”

Assinado: Tecla Fabri, Teresa Cari e Maria Lopes.

Digitado do livro Socialismo e Sindicalismo no Brasil, Edgar Rodrigues, 1969. Pela Coordenação de Imprensa do Sindivários Campinas. Copyleft: para Sindivários Campinas. Sobre lincença: Creative Commons, alguns direitos reservados:http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.5/br/


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