DOMINGOS PASSOS
Brasileiro, operário carpinteiro, anarquista.
Sua militância desenvolveu-se mais intensamente entre o Rio de janeiro e São Paulo, embora chegasse a viver algum tempo no Rio Grande do Sul e no Campo de Concentração do Oiapoque, Clevelândia, fundado no "reinado bernardista" de onde fugiu através das selavas amazônicas.
Inteligentíssimo, muito culto, sensibilizava as pessoas quando escrevia ou discursava nas assembléias, nos comícios e nos congressos.
Tão adversário dos bolchevistas quanto dos políticos de todas as cores, Domingos Passos tinha inimigos à esquerda e à direita. Foi preso muitas vezes, e acabou tendo de refugiar-se em lugar de onde jamais se volta.
Nas suas andanças pelo Sul, participou do 3º Congresso Operário realizado em Porto Alegre, enviando à imprensa anarquista um relatório manuscrito() com a seguinte "observação final". "Grupos Comunistas não existem atualmente em Porto Alegre. Os partidários do comunismo autoritário, aqui e lá, estão num desprestígio e inferioridade significativas. Andam fechados ou completo silêncio, como que esperam ordens do Supremo Chefe S. Futura Majestade Astrojildo".
No Rio de Janeiro – com Marques da Costa e Octávio Brandão, antes deste último "virara casaca"- formou um trio de combate aos fundadores do PCB preocupando seriamente Astrojildo e seus "12 apóstolos"...
Com sua fuga do Oiapoque fixou-se em São Paulo, formado com outros companheiros o "Comitê Pró-Defesa de Sacco e Vanzetti".
Domingos Passos foi um dos elementos mais produtivos que passaram pelo movimento anarquista nos anos vinte, um dos mais corajosos militantes que o Brasil já teve, chegando pela sua agilidade e poder de comunicação e rapidez de locomoção a ser chamado de O Bakunin Brasileiro.
Sobre este mestiço inteligente e culto, operário carpinteiro e anarquista, seu companheiro de lutas, idéias e martírios, Pedro Catalo escreveu as seguintes linhas: "A campanha em favor dos anarquistas italianos Nicola Sacco e Bartolomeu Vanzetti, injustamente condenados à cadeira elétrica pela truculenta justiça norte-americana, que os incriminara num assassinato que não cometeram, já havia tomado grandes proporções em todo o mundo, devido a que, o movimento sindical em quase todos os países era dirigido e liderado por elementos anarquistas, mais conhecidos por anarco-sindicalistas.
Em São Paulo, antes do ano de 1924, a agitação em prol daqueles militantes libertários que jaziam nas prisões de Massachussets há vários anos, fazia-se sem planificação. A partir daquela data, este movimento de agitação que tomaria significativa projeção nos meios populares de São Paulo, passou a ser feito com regularidade e persistência.
Dentre as organizações sindicais daquela época, destacava-se a União dos Artífices em Calçados e Classes Anexas, pela ação francamente revolucionária e direta que sempre preconizara em todas as suas reivindicações. Esta organização de sapateiros realizava tradicionalmente assembléias, efetuadas também por tradição na rua Florêncio de Abreu, no velho Salão Itália Fausta, onde nasceu o Comitê de agitação pró-Sacco e Vanzetti, e que ficou assim constituído: João Peres, Pascual Martines, José Ramón e Pedro Catalo.
Ao redor deste comitê moviam-se um bom número de agrupamentos anarquistas, que por sua vez agiam influentemente em quase todos os sindicatos daquela época. Assim, a campanha de protesto contra a eletrocussão daqueles dois idealistas, começou a crescer e muito em breve os comícios tomaram uma efetivação sistemática e permanente. Durante uma semana, fazia-se em salões de bairros e aos domingos a concentração fazia-se em praça pública, tendo como ponto de preferência o conhecido Largo da Concórdia, onde existia um coreto que resultava muito apropriado para estas ocasiões.
Não será para nós tarefa muito fácil, agora, depois de passados trinta e oito anos, lembrar os nomes de todos os bravos e dedicados companheiros que pagavam com o cárcere, a coragem e vai neles, toda a nossa sincera devoção de homenagear todos aqueles militantes e simpatizantes que participaram daquela memorável campanha de solidariedade humana. São dois homens que deixaram traços marcantes pela sua influência pessoal e pela competente oratória que possuíam.
Domingos Passos, moreno, pardo, oriundo de avós índios, trinta e cinco anos mais ou menos, era do Rio de Janeiro. Carpinteiro de profissão, trazia no corpo os calafrios da maleita que contraíra nas infernais regiões do Oiapoque, onde foi deportado junto com outros anarquistas, pelo então presidente da república. Artur Bernardes, e de onde empreendeu dramática e perigosa fuga; foi a figura saliente em todos os comícios e reuniões. Dono de uma oratória suave, envolvente e agressiva aos mesmo tempo, multiplicava a afluência aos comícios, desejosa de ouvi-lo falar. Quando terminava, havia sempre um grupo de intelectuais que desejava falar-lhe e conhece-lo. Depois, raramente, chegava aos seu domicílio porque a polícia cercava-o no caminho e levava-o para o xadrez, onde "repousava" de quinze a trinta dias por vez. Isto foi assim enquanto durou a campanha, quase três anos de 1924 a 1927.
Havia naquela época um dispositivo de lei que obrigava a participar à polícia, quarenta e oito horas antes, onde iria realizar-se o comício, e o requerimento deveria ser assinado por um responsável. Domingos Passos que havia saído poucos dias antes da prisão, participava também da reunião do comitê de agitação que estava preparando o citado requerimento a ser enviado à polícia. Passos quis lê-lo e ato contínuo tomou da caneta e assinou-o. Houveram protestos de nossa parte e estávamos dispostos a rasgá-lo, porque aquela assinatura, naquele requerimento, representava um desafio direto à polícia.
Domingos Passos era um homem de atitudes definidas e, claro, peremptórias e corajosas e de nenhum modo quis aceitar o nosso protesto e a anulação da sua assinatura. Disse que um teria de assinar, pois queria ser ele, dando a entender que mostraria à polícia que ele não se vergava facilmente. É fácil deduzir que Passos havia assinado a sentença da sua própria deportação para as matas virgens de Sengés, pois foi lá atirado depois de mais de três meses preso, incomunicável, num xadrez escuro, sem janela, sozinho, recebendo um pouco da péssima comida uma vez por dia, num presídio horrendo chamado a Bastilha do Cambuci, que provocou lágrimas e revolta quando foi devassado e destruído pela multidão na memorável revolução de 1930.
Soubemos que, quando Domingos Passos foi retirado desse cárcere para ser atirado nas matas de Sengés, seu corpo estava coberto de chagas e de sua vestimenta restava apenas fiapos, pois a roupa havia sido consumida de tanto arrastar-se naquela lúgubre e escura cela da famosa bastilha do Cambuci.
Depois de algum tempo soubemos do seu paradeiro porque conseguiu aproximar-se de um povoado, e um hoteleiro não se apavorando do seu triste e repugnante aspecto, permitiu que nos escrevesse usando aquele endereço.
Mandamos de imediato uma pessoa insuspeita da polícia para que levasse algum dinheiro, que aliás, solicitara na carta que indicava o seu paradeiro. Foi esse incógnito emissário que nos revelou o doloroso destino desse valoroso militante anarquista. Depois disso nunca mais tivemos notícias positivas a seu respeito, apenas alguns boatos que de anos em anos a imprensa publicava, como por exemplo em 1938: "passou pelo porto de Santos, com destino à Espanha, o famoso anarquista Domingos Passos". Mas, de positivo, nunca mais soubemos nada.
