Sindivários Campinas

Texto traduzido e digitalizado pela seção Campinas da FOSP  do livro Antologia do Anarcosindicalismo, Victor Garcia-

Congresso de Amsterdam


A questão sindical se viu dramatizada por um grande debate entre Malatesta e Monatte o qual enfatizava a presença de correntes comuns de identificar na opinião anarquista do período. Monatte entendia o sindicalismo revolucionário com um meio e uma finalidade na ação revolucionária. Através dos sindicatos os trabalhadores podiam sustentar suas lutas contra o capitalismo e precipitar seu fim pela greve geral; por isso os sindicatos poderiam passar a ser a estrutura básica da nova sociedade, onde a solidariedade dos trabalhadores encontraria a forma concreta através da organização industrial.

Apesar de sua devoção à causa anarquista, Malatesta tinha uma mente demasiada prática para ignorar a arma que as formas de ação sindical possibilitaria. Mas, insistiu no fato de que o sindicalismo só poderia ser tido em conta como meio, e um meio imperfeito, dado que estava baseado na rígida concepção da sociedade de classes na qual ignorava o fato que os interesses dos trabalhadores variavam tanto que “algumas vezes os trabalhadores se aliam, econômica e moralmente mais próximo da burguesia do que do proletariado”. Devido a isso, a imersão em assuntos sindicais e uma fé simplista na greve geral não somente era irreal, como conduzia os militantes revolucionários a descuidar de outros meios de luta e, em particular, a ignorar o fato que a grande tarefa revolucionária não consistia em os trabalhadores pararem de trabalhar, mas sim, como Kropotkin dizia, “para eles continuarem trabalhando por sua própria conta”. Os sindicalistas extremistas, sobre o ponto de vista de Malatesta, estavam buscando uma solidariedade econômica no lugar de uma solidariedade moral; colocavam os interesses de uma só classe sobre o verdadeiro ideal anarquista de uma revolução a qual buscará “a libertação completa de toda humanidade, atualmente escravizada, e isso nos três pontos de vista: econômico, político e moral.”1

Ao ouvir esta noite como Malatesta criticava duramente os novos conceitos revolucionários, teve-se a sensação de que estava ouvindo argumentos de um distante passado. A estes novos conceitos, cuja brutal realidade o espanta, Malatesta opôs simplesmente as velhas idéias blanquistas que alimentavam a acariciada ilusão de que era possível revigorizar o mundo mediante uma insurreição armada triunfante.

No mais, os sindicalistas revolucionários presentes está noite foram repreendidos por ter sacrificado em forma deliberada o anarquismo e a revolução para o sindicalismo e a greve geral. Pois bem, quero declarar que nosso anarquismo é tão bom quanto o vosso e que não temos mais intenções que vós mettre nôtre drapeau dans nôtre poche (colocar a bandeira no bolsinho, “enrolar a bandeira e sair”). Como no caso de todos os que estão aqui, a anarquia é nosso objetivo final. Mas posto que os tempos têm mudado, também temos trocado nossa conceito de movimento e de revolução. Está última não pode enganar-se pelo modelo de 1848. No que respeita o sindicalismo, se em alguns países tem dado origem na prática de certos erros e desvios, aqui está a experiência para impedir de repeti-los. Se no lugar de criticar de cima a baixo as deficiências passadas, presentes ou inclusive futuras do sindicalismo, os anarquistas participarem mais intimamente na sua atividade, cairiam conjurados para sempre, os perigos ocultos que o sindicalismo por ventura contenha.2

Monatte se referiu especialmente ao desenvolvimento histórica do movimento socialista da França e mostrou como havia criado o proletariado francês, através das intermináveis recortes dos partidos socialistas, finalmente, na Confédération Genérale do Travail, uma organização que não só capacitava para impor pela própria força as necessárias melhorias de sua situação, senão também para ter em conta os preparativos para uma transformação socialista da sociedade. Dessa maneira, parecia uma nova tendência independente do socialismo, que não se sentia já ligada aos programas políticos dos partidos socialistas e que oporia a consigna da conquista do poder político a solução da conquista da terra e dos estabelecimentos industriais pelos trabalhadores, pois uma reorganização efetiva da vida econômica só era possível sobre a base de uma associação econômica dos produtores. Mas de tal organização resultavam por si mesmas as forças revolucionárias para transformação da sociedade, que hoje não é realizável imediatamente pelo meio antiquado das batalhas em barricadas dos tempos passados, senão só pela força econômica associada dos produtores, que tinha sua expressão mais elevada na greve geral social. Monatte era portanto de opinião que os anarquistas deviam colocar os sindicatos no ponto de gravidade de sua atividade, para atuar ali à favor da realização de suas idéias.

A exposição de Monatte seguiu uma discussão vivaz, em que interviram os delegados de todos os países representados. Quase todos os oradores se declararam de acordo com a atuação dos companheiros nos sindicatos, o que se fazia praticamente em todos os países. Mas quase todos acentuaram a necessidade de um movimento anarquista independente, pois as idéias do anarquismo transcendiam aos problemas meramente econômicos. Foi em especial, Malatesta quem expressou mais claramente o ponto de vista, manifestando que o anarquismo não era assunto de uma determinada classe, senão um concepção social que abarcava todos os domínios da vida.3

Quero, hoje como ontem, que os anarquistas entrem no movimento operário. Sou, hoje com ontem, um sindicalista, no sentido que sou partidário dos sindicatos. Não peço sindicatos anarquistas que legitimariam, imediatamente, sindicatos social-demócratas, republicanos, realistas ou outros e seriam quanto mais, bons para dividir mais que nunca a classe trabalhadora contra ela mesma. Não quero inclusive sindicatos chamados “vermelhos”, porque não quero sindicatos chamados “amarelos”. Quero, pelo contrário, sindicatos amplamente abertos a todos os trabalhadores sem distinção de opiniões, sindicatos totalmente “neutros”.

Portanto, sou partidário da participação mais ativa possível no movimento operário. Mas sou antes de tudo, no interesse de nossa propaganda, cujo o campo se faça desta maneira mais ampliado. Somente esta participação não pode equivaler em nada em renuncia as nossa mais caras idéias. O sindicato, devemos continuar sendo anarquistas, em toda força e toda amplitude desse termo. O movimento operário não é para mim senão um meio – o melhor, evidentemente -, de todos os meios que nos são oferecidos. Esse meio, reuso toma-lo como uma finalidade, e inclusive não o quisera mais se nos fizesse perder de vista o conjunto de nossas concepções anarquistas ou, mais simplesmente, nossos meios de propaganda e agitação.

Os sindicalistas, em contra partida, tendem a fazer do meio uma finalidade, em tomar parte por um todo. E é assim como, no espirito de alguns de nossos companheiros, o sindicalismo está desenvolvimento uma doutrina nova e a ameaçar o anarquismo em sua existência.

Sem obstruir, inclusive se faz mais forte com o epiteto bem inútil de revolucionário, o sindicalismo não é nem será jamais senão um movimento legalista e conservador, sem outra finalidade acessível – e se caso!- no melhoramento das condições de trabalho. Não buscaria outra prova senão que as nos são oferecidas pelas grandes uniões estadunidenses. Depois de mostrado um revolucionarismo radical, no tempo em que alguns eram débeis, essas organizações se tornaram organizações, com o tempo em que cresciam em força e riqueza, pesadamente conservadoras, unicamente preocupadas de fazer seus membros privilegiados nas fábricas, das oficinas ou das minas e muito menos hostis ao capitalismo patronal que ao trabalhadores não-organizados, a esse proletariado em farrapos manipulado pela social-democracia. Sem embargo, esse proletariado sempre no auge dos desempregados, que não conta para o sindicalismo, ou melhor, que não conta senão como obstáculo, não podemos esquece-lo, os anarquistas, e devemos defende-lo porque são os que mais sofrem.

Repito: É preciso que os anarquistas vão as uniões dos trabalhadores. Em primeiro lugar para fazer ali nossa propaganda anarquista; logo porque é o único meio para nós deter a disposição, o dia que desejamos, grupos capazes de tomar nas mãos a direção da produção; devemos entrar nele para reagir energeticamente contra esse estado de espirito aborrecido que inclina os sindicatos a não defender senão os interesses particulares.

O erro fundamental de todos os sindicalistas revolucionários provem, segundo meu entendimento, de uma concepção demasiado simplista da luta de classes. É na concepção segundo a qual os interesses econômicos de todos os trabalhadores - da classe trabalhadora – seriam solidários, a concepção segundo a qual é suficiente os trabalhadores tomem nas mãos a defesa de seus interesses próprios para defender ao mesmo tempo os interesses de todo o proletariado contra a patronal ...

Agora devemos concluir. Lamentava outrora que os companheiros se isolavam do movimento operário. Hoje em dia lamento que muitos de nós, caiam no excesso contrário, se deixem absorver por esse mesmo movimento. Uma vez mais, a organização trabalhadora, a greve geral, a ação direta, o boicote, a sabotagem e a insurreição armada em si mesma, não são todos senão meios. A anarquia é a finalidade. A revolução anarquista que queremos vai muito além que os interesses de uma classe: se propõe a libertação completa da humanidade atualmente avassalada, por tripla formas, do ponto de vista econômico, político e moral. Guardemos-nos portanto de empregar qualquer meio de ação unilateral e simplista: o sindicalismo, meio de ação por excelência, emprega as forças trabalhadoras que põe a nossa disposição e não pode ser nosso único meio. Nada menos deve fazer-nos perde de vista a única finalidade que vale esforço: a Anaquia.4

O Congresso de Amsterdam os anarquistas não votaram unanimamente em adotar táticas anarcosindicalistas. Um amplo grupo apoiou entusiasticamente a Enrico Malatesta, velho veterano de sua causa, quem citou a experiência dos anarquistas na CGT francesa como prova de que um movimento dos trabalhadores não era veículo satisfatório para revolução, e exortou a voltar a tradicional “propaganda pela palavra e pela ação”.. Malatesta rechaçou o plano da tática, e o ideal, da greve geral, que considerava como “pura utopia”. Malatesta declarou que “ou o trabalhador, morto de fome depois de três dia de greve, regressará a fábrica abaixando a cabeça e colheremos mais uma derrota, ou tratará de obter a posse dos meios dos frutos da produção pela força.

Neste caso, a quem fará frente para detê-los? Os soldados, as polícias, quiça os mesmos burgueses, e então a questão se resolve com balas e bombas. Iniciada a insurreição e a vitória será do mais forte.”

Ao final, o Congresso de Amsterdam votou por uma solução de compromisso que não resolvia o conflito. Sem embargo, é significativo que este grande congresso de anarquistas, o último celebrado em muitas décadas, não se entregará ao anarcosindicalismo.5

1 George Woodcock, Aarchism. Meridian Books. Cleveland, 1962. página 267.

2 Pierre Monatte. Respuesta a Malatesta, Cita Vernon Richards: “Malastesta, life and ideas” Freedom Press, London, 1965, pág. 286.

3Rudolf Rocker. Em la Borrasca. Editorial Tupac, Buenos Aires, 1949, paginas 229/230

4Errico Malatesta. “Syndicalisme” em “ L'Encyclopedie Anarchiste” cit III, 2.706 e 2.707.

5John Connelly Ullman. La Semana Trágica. Ariel, Barcelona, 1972, página 231.


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