Sindivários Campinas

Texto histórico - 1909

Federação Operária do Rio de Janeiro
Manifesto ao operariado e ao povo


A Federação Operário do Rio de Janeiro, de acordo com as resoluções do 1º Congresso Operário Brasileiro resolverá publicar o presente manifesto, no intuito de explicar ao proletariado a significação histórica do 1º de Maio e de convidá-lo a tomar parte nas manifestações de protesto que se realizarão nesse dia no comício do largo de São Francisco, as 2 horas da tarde e na sessão solene ás 5 horas na sede da Federação, á rua do Hospício n 111.

O 1º Maio não é como geralmente se supõe, um dia de festa e de alegria. O 1° de Maio foi o prólogo de uma tragédia sangrenta que teve como epílogo um ano depois a 11 de Novembro de 1887, o enforcamento de quatro operários briosos e ilustres, que haviam consagrado todo seu saber á causa da emancipação econômica e social do proletariado universal. E foi por assim entender que o Congresso Operário de Paris, reunido em 1889, deliberou considerar o 1º de Maio como marco inicial da guerra declarada pelo operariado á exploração capitalista e ao regime do salariado.
O Congresso Operário de Paris, por sua vez, não fazia senão ratificar as idéias espalhadas pela Internacional, idéias que encontraram nos enforcados de Chicago os primeiros paladinos e os primeiros mártires. A Internacional desfraldara ao vento a bandeira da luta sem política de partido, mostrando aos escravos do salário que a sua situação é igual em toda parte, e o proletariado despertou, nos campos, nas cidades, nas indústrias, para batalha, decidido a fazer triunfar as suas reivindicações.
A Internacional proclamara bem alto: “ a emancipação dos trabalhadores deve ser obra dos próprios trabalhadores” e o proletariado americano agitou-se, vendo que pela primeira vez um verdade se impunha a sua consciência com acerto. Ele viu que sua questão nada tinha de comum com as questões de pátria, que os seus interesses não estavam no exercício da política governamental e que os triunfos eleitorais dos partidos burgueses, longe de curarem dos seus interesses, não visavam senão dividir a família proletária e por esse modo, amortecer a sua inteligência, desviando a sua atenção das questões econômicas e sociais que jorravam do cérebro dos sábios e dos sociólogos.
A Internacional tocara a reunir, espalhando os princípios de uma nova doutrina e o operariado começou a compreender que a negação do seu contingente ao militarismo constituía um dos primeiros deveres. Ele viu nitidamente que era preciso destruir as fronteiras patrióticas porque elas representam o marco divisório da propriedade individual e compreendeu que para a justiça tornar-se um fato, a propriedade devia ser comum e que envergando a farda do soldado jamais poderia contribuir para o advento de um regime de igualdade. Ele viu que ao passo que o envia para o combate matar-se simultânea e reciprocamente, só celebravam pactos de aliança para perpetuarem os seus privilégios abraçando-se sobre fronteiras e proclamando descaradamente que o patriotismo não era senão a mascara hipócrita de que eles se serviam para iludir e explorar o operariado.
A Internacional sugerira a idéia de uma Confederação Universal de Trabalhadores unidos para a administração e gozo da vida e operariado percebeu desde logo que, efetivamente, organizados em comunas produtoras, socializando a terra e todos os meios de produção, poderiam realizar a troca de produtos sem recorrer aos meios artificiais representativos do valor natural desses produtos. Ele compreendeu que o dinheiro, facilitando a acumulação, produzia a desigualdade econômica porque autoriza a deserção de um grande número de indivíduos do meio de produção e converte-os em ociosos, que, além de não trabalharem, adulteram o valor dos produtos, explorando gananciosamente as crises criadas pelo regime da propriedade individual.
A Internacional discutira a racionalidade da política do governo, perguntando se eles existiam pela vontade unânime dos seus concidadãos, e o povo raciocinou e percebeu que o sufrágio universal era uma verdadeira comédia burguesa e que os governos só representavam a ignorância dos trabalhadores desorganizados, a prova era que todo sistema de governo, para manter-se e atravessar os séculos, estribava-se na força armada, sabendo de antemão que no dia em que promulgasse a extinção do militarismo deixaria de existir, porque o povo não se submeteria a ninguém e entraria na posse comum de seu patrimônio hoje açambarcado pela burguesia.
A Internacional sempre incansável na propaganda de suas idéias, perguntara em nome de que razão o indivíduo se julgava com o direito de eximir-se ao trabalho e o operariado, compreendendo o alcance das suas doutrinas, viu que em uma sociedade justa, onde a ordem é a harmonia dos interesses, ninguém deveria eximir-se ao trabalho senão em caso de invalidez, na infância, quando enfermo ou na velhice. O proletariado começou então a estudar a utilidade das coisas e achou uma multidão de indivíduos ocupados em profissões parasitarias.
A Internacional explicava para greve geral revolucionária como meio de fazer triunfar as aspirações proletárias e o operariado, que desde 1808 se vinha agitá-la, o impulso vigoroso dos fundadores da Internacional, respondeu manifestando-se de acordo com aquela opinião. O 1º de Maio na América do Norte, como vemos na última parte deste manifesto, fala bem alto, como documento histórico sobre a influência das doutrinas da Internacional na massa operária.
***
O 1º de Maio 1886 primeiro de muitos e evidenciou as duas classes em luta. Milhares de operários deixaram nesse dia seu trabalho e foram aos comícios que se realizavam em toda parte. A paralisação do trabalho generalizou-se dentro e dentro em pouco os grevistas atingiam um número considerável. A burguesia, assombrada com o movimento operário, lança mão da força e o primeiro assalto atinge uma manifestação de 600 mulheres, havendo mortes e ferimentos. Mas apesar de tudo a burguesia era obrigada a fazer concessões e a causa do trabalho triunfava em toda a linha.
Entretanto, acastelada em seus privilégios a feitoria de Mc Cormicks resistia as exigências dos operários fazendo-os sacrificar na praça publica. Em conseqüência disso, realizou-se um comício a que compareceu todas as classes operárias. Parada a reunião em meio quando terminou o trabalho a feitoria e começou sair o seu pessoal. O povo protesta, exige paralisação do trabalho, a força é chamada e intervém, declara-se o conflito e o povo acometido de surpresa, vê-se obrigado a fugir sob fuzilaria tremenda, deixando no campo grande número de mortos e feridos. Indignado com o procedimento da polícia, Augusto Spies convoca o povo e realiza um comício em Haymarket no dia seguinte. A polícia intervém de novo e quando ia atacar o povo ouve-se o estalar de uma bomba que abre nas suas fileiras um claro de 60 homens, mas a força não quis refletir e além dos morticínios, realizou a prisão dos elementos mais em evidência na classe operária.
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Depois de um processo infame, julgado por um júri mercenário, com testemunhas compradas a peso de ouro, a justiça publicava o seu veredictum condenando a forca sete operários anarquistas. Eram eles: Spies, Sehwal, Fieelden, Engel, Fischer, Lingg e Neeb. É, com efeito, à 11 de Novembro de 1887, quatro corpos inertes pendiam do cadafalso, balançando ao sopro do ar como protesto contra a injustiça governamental. Fischer, Parsons, Engel e Spies não podem mais dirigir ao povo a sua palavra eloqüente, mas deixavam plantada com o seu exemplo a semente da liberdade e Lingg suicidando-se no cárcere, roubava ao verdugo o prazer de banquetear-se no seu sangue inocente.
Mais tarde o governador de Illinois, mandando rever o processo, descobriu que ele constituía um clamoroso crime jurídico e restitui a liberdade a Fieelden e Nieeb, cuja pena de morte fora comutada na prisão perpétua.
Eis o que foi o 1° de Maio de 1886, regado com sangue dos nossos companheiros. Julgue agora operariado se pode ser um dia de festa ou se é um dia de luto.
A Comissão

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