A DEFESA DA NOVA ORGANIZAÇÃO SOCIAL
O problema da defesa da organização socialista libertária foi posto diante de nós, anarquistas, pelos fatos da história atual, a reclamar uma solução. Ora, essa solução depende diretamente da que dermos ao problema correlato, qual seja o do início e da marcha da revolução. Aqui, o problema envolve uma questão de doutrina. Duas correntes disputam a solução: a autoritária, centralizadora, representada pelos sociais-democratas e pelos marxistas comunistas, e a libertária, autonomista, representada pelos anarquistas.
Até hoje, nas mais recentes revoluções, a corrente predominante tem sido a autoritária, e autoritários têm sido os processos para guiar e defender a revolução. A corrente libertária, anarquista, devido a circunstâncias históricas alheias à sua vontade, não tem podido execer a necessária influência. E isto se compreende facilmente, dado o limitado número de anarquistas em relação às multidões políticas e a morosa penetração das idéias nas massas em muitos países que, infelizmente, ainda possuem mentalidade muito afeita aos métodos autoritários.
Se nos movimentos de luta para a transformação social predominarem os métodos anarquistas, anárquicos serão os processos de luta, e anárquica será a organização de defesa. O que caráter iza o anarquismo como sistema é a coerência lógica de suas finalidades com os meios empregados para realizá-las. Essa é a sua força.
Abandonar essa coerência é de antemão ser condenado à derrota; é ver o inimigo, a autoridade, surgir triunfante dentro das próprias fileiras.
Portanto, para os anarquistas, defender a revolução é manter o seu caráter anárquico, e, para mantê-lo, é logicamente necessário que esse caráter exista desde o início.
Como imprimir caráter anárquico à revolução? Antes de tudo, fazer o possível para que a luta se estabeleça simultaneamente por toda parte, mantida por grupos de revolucionários autônomos, capazes de realizar separadamente, sem esperar nenhuma orientação vinda de qualquer parte, todo objetivo da revolução.
Quando o fogo irrompe num só ponto, é fácil extingui-lo ou circunscrevê-lo; mas, quando surge de todos os lados, não há forças capazes de apagá-lo.
Diante de uma revolução verdadeiramente anárquica, a burguesia será impotente. Que poderá ela fazer quando as comunas autônomas surgirem por toda parte, tendo todos os seus habitantes armados e prontos a defendê-las?
O problema é sempre o mesmo: dividir, descentralizar a vida social, criando milhares de organismos vivos capazes de se defenderem de um inimigo visível — a burguesia — e de um inimigo invisível porém mais forte ainda porque está dentro de nós mesmos: a mentalidade autoritária.
VICTOR FRANCO
Do livro Anarquismo - Roteiro de Libertação Social - Edgard Leuenroth
Digitado pelo Coordenação de Imprensa do Sindivários
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