Roteiro para a libertação
O anarquismo visa, principalmente, a emancipação do homem, de todos os sere humanos, da exploração e do domínio de uns sobre outros, seja qual for a sua forma.
Os anarquistas aspiram por conseguinte, a supressão de todos os privilégios, do privilégio da riqueza como do privilégio do poder: do privilégio do bem-estar com dos privilégios do saber.
A riqueza é fruto do trabalho humano: do trabalho das gerações passadas e do trabalho das gerações presentes. Mais exatamente: a riqueza social é o fruto do esforço combinado de todas as gerações passadas e de todos os trabalhadores da geração presente, de modo que torna-se materialmente impossível estabelecer com precisão, mesmo aproximadamente, o valor da contribuição de cada um, isto quer dizer que os trabalhadores das gerações passadas – infinitas gerações de escravos, de servos e de oprimidos, trabalham não só para enriquecer os patrões que os exploram e sustentar a miséria de suas vidas, mas ainda para nós, da mesma forma que nós trabalhamos hoje para as gerações vindouras. Todos temos direitos iguais ao fruto desse trabalho acumulado, o que nos permite multiplicar a produtividade de nosso trabalho hoje.
Esse patrimônio acumulado pelas gerações passadas é constituído pelo solo tornado fértil, pelos meios de produção e troca, pelos conhecimentos adquiridos através de experiências que formam hoje monopólios odiosos de uma pequena minoria de privilegiados pelo Estado e tolerados pela resignação da maioria composta pela grande massa dos oprimidos e explorados. Para sustentar esse estado de coisas os privilegiados lançam mão de persuasão e força capazes de obrigar os trabalhadores a submeter-se ao jugo de sua vontade.
A meta certa para a qual se devem dirigir todos os nossos atos e os nossos pensamentos é, por conseguinte, o resgate do patrimônio social acumulado pelo trabalho das gerações passadas combinado com os esforços da geração presente, para colocar esse patrimônio em beneficio de todos os seres humanos. Impõe-se, portanto, a abolição de todos os privilégios e monopólios econômicos da minoria parasitária, de forma que a terra, os meios de produção, o ar, a luz, a água, pois até isso constitui monopólio, sejam postos livremente á disposição de todos, assegurando, assim, não só a própria existência em condições dignas de se viver, mas ainda a existência das gerações futuras.
S expropriação da terra, dos meios de produção e do saber não constitui uma necessidade arbitrariamente inventada pelos teóricos e militantes do anarquismo. É, antes, uma aspiração humana; é, sobretudo, a própria condição dos princípios de liberdade e justiça na conciliação dos interesses materiais da vida, caracterizada pelos movimentos rebeldes de todos os tempos, movimentos deturpados e aproveitados pelos privilegiados para dividir e hostilizar os povos, tornando-os inimigos e provocando as guerras.
Hoje mesmo, em face do abismo de misérias e de sangue em que a humanidade foi lançada pela cobiça das rivalidades dos detentores do poder, em sua disputa de privilégios e ambição de mando, cada vez mais se evidencia que a existência da humanidade está condicionada á abolição desses monopólios, odiosos e iníquos, que a condenam ao suicídio coletivo pela destruição atômica e pela guerra bioquímica.
Guardião feroz, insaciável, violento, implacável de todos os privilégios e monopólios que impedem os trabalhadores de terem livre acesso nos meios de produção e ao gozo dos benefícios da riqueza social, é o Estado aparelhado de todos os meios materiais, morais e científicos que deveriam pertencer á sociedade.
O Estado pretende ser a própria sociedade, e, em nome desta, oprime, massacra, bestializa e aniquila os seus componentes. Mas, quer a sua ação se desenvolva em nome de Deus ou dos homens; quer se diga liberal, democrático ou socialista; absoluto ou constitucional; monárquico ou republicano, a função do Estado é sempre a mesma: perpetuar a escravização das multidões que trabalham e produzem em proveito das minorias privilegiadas, as quais podem formar uma classe autônoma, constituída pelo capitalismo, como no Brasil, nos Estados Unidos, etc., ou formar o conjunto integrante da burocracia estatal, como na União Soviética e nas autocracias orientais. Em todas os casos, seja qual for sua estrutura, o Estado se considera depositário dos destinos da coletividade, confundindo e identificando os interesses e a fortuna da sociedade com os seus próprios interesses e fortuna.
Enquanto existir o Estado, enquanto os oprimidos cultivarem ilusões com relação ao Estado, resignando-se ao seu jugo e obedecendo as ordens dos potentados, os meios de produção e de consumo, a terra, o ar, a luz, os conhecimentos e, por conseguinte, a riqueza e o bem-estar, continuarão sendo monopólio da minoria privilegiada que, direta ou indiretamente, os controla; e a maioria dos produtores continuará sendo explorada, oprimida, vilipendiada; carne de canhões, campos de experiências políticas nas prisões e campos de concentração.
Abolir o Estado, abolir o próprio princípio de autoridade do homem sobre o homem é, por conseguinte, condição essencial para abolição dos monopólios e privilégios particulares da riqueza dos quais o Estado é sustentáculo através de seus presídios e de seus soldados. Nunca, como agora, neste momento de profunda crise das instituições sociais e da própria consciência humana, se torna tão evidente que o Estado, em todas as suas formas e manifestações, constitui o obstáculo irreparável á existência da paz entre os homens e dos povos, que desejam retornar às suas atividades na vida civil, que desejam e precisam trabalhar para o engrandecimento da espécie.
É essa, em traços fundamentais, a aspiração e a meta do anarquismo, que, há mais de um século, proclama a necessidade de uma transformação profunda que abale e atinja os alicerces da estrutura em que se assenta a tirania.
Em torno desta aspiração se desenvolve a ação e atividade dos anarquistas, visando a meta de seus apostulados sociais: Dizer e fazer tudo o que seja suscetível de propiciar a abolição de todos os privilégios particulares, que consistem na exploração e desfrutamento econômico e no domínio político; nada fazer e nada dizer que tais privilégios possa dar trégua ou consentimento.
No exame dos problemas particulares, na proposição de soluções concretas da nossa atividade quotidiana, na esquecemos jamais a nossa meta, que é a emancipação integral dos seres humanos, do patrão que os explora, do governo que os oprime, do padre que os engana e embrutece. Precavemo-nos sempre de dizer ou fazer coisas que ao patrão, ao governo e ao padre possa dar conforto, alento e vida, tendo em conta que nossa trilogia sinistra se apóia a estrutura social do regime que escraviza e mantém os povos na miséria, que estimula ódios e aniquila o princípio de liberdade e justiça.
Esse é o roteiro que os anarquistas escolheram para a sua luta pela transformação libertária da sociedade.
Artigo retirado da A Plebe, 15 de dezembro de 1947 -
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